Mapa de Arch’na (ar.can), cenário do Mundo do Moinho Vermelho.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Prólogo silencioso
Faz muito
tempo que animais gigantes e monstros incomuns deixaram de ser a preocupação
das sociedades do continente de Hexto. A civilização vai evoluindo a um
estágio, em que ela cria seus próprios monstros e preocupações.
“Evoluindo”.
Cresce o poder
político e econômico de grandes cidades, e cresce também a submissão de uma
multidão de pessoas por um punhado mal intencionado de indivíduos movidos por
interesses próprios. Grandes impérios são construídos: edificados sob os pés dos poderosos, e sobre as mãos calejadas dos povos que
habitam as Terras Povoadas. Submetidos a servidão, colonização, e a escravidão.
Quando a enganação e
o frasco das aparências não funcionam
mais para manter a dominação de um povo, as espadas e demais armas – sejam elas
forjadas sob o calor da magia, ou feita do ferro puro – são responsáveis por
coagir os desamparados a não contrariarem seu destino infeliz. Isso significa
que a boa lábia de um governante sempre é respaldada por um amontoado de homens
com os seguintes itens: armas, brutalidade,
e a mais vil obediência.
As coisas não estão nada boas...
Essa é uma época em
que pesadelos com um açoite de um carrasco trás mais medo do que um pesadelo com
um incêndio provocado por um dragão. Por quê? Porque no patamar que as coisas
andam, os dragões põem menos medo em um povo, do que um poderoso senhor.
Nessa situação em que
o mundo se encontra, é fácil compreender o porquê de um homem sem nome ter potencial para representar um forte perigo para
uns, e mais ainda, esperança para outros.
Por que afinal, ele?
O que este homem sem nome tem de tão
especial?
A resposta nunca seria
encontrada por esta linha de raciocínio, afinal, o segredo deste homem – que nem
o nome ao certo nós sabemos –, não reside apenas nele próprio.
O homem sem nome
nunca incomodou tantos homens poderosos – tanto os governantes, quanto os nobres
e senhores – apenas por conta de si mesmo. Sua conduta incomodou – e incomoda –
tanta gente “importante”, porque ele mais do que ninguém, sabe fazer o mais
humilde dos homens, perceber seu valor. Porque ele inspirava aos mansos e
injustiçados, a ira justificável e a justiça com as próprias mãos.
A principal resposta
não consiste no que ele tem de tão especial nele
mesmo, mas sim no fato de que ele é capaz de mostrar às simples pessoas, o
que elas em comum têm em especial.
O motivo de ele ter
se tornado praticamente uma lenda em todo Ramett também consiste nisso. Aos
poderosos, ele não só os “incomodou”, fez muito mais que isso. Inspirou
multidões de pessoas que “incomodaram”...
Sua história tem um
quê de tão especial, que em todo Ramett não há alguém que saiba com a devida
certeza o que é verdade, invenção ou exagero.
Ele não é uma citação
de uma canção antiga das tradições locais, porque ele não é o herói de um
povoado. Se ele fosse uma canção, seria da do tipo que é cantarolada em todo o
mundo. As histórias sobre ele ecoam das terras
selvagens às terras civilizadas. Seus
feitos são contados nas terras povoadas de Hexto e para além das águas
navegáveis. Há mais pessoas que contaram – ou ouviram – uma história sobre ele,
do que fiéis de um deus.
É do interesse dos
poderosos que seus feitos sejam desacreditados, e que não passe de um boato
antigo e de mau gosto. Mas as coisas não são sempre do jeito que os poderosos
querem, e a fama do sem nome segue
forte, e devido a isso, pelos poderosos essa fama é reprimida. Por isso, há
locais que o fato de muito se falar dele pode tornar uma pessoa alvo de
desconfiança por parte das autoridades, e fazer uma pessoa ser tachada como
individuo de conduta suspeita.
Ele não é cultuado
como um deus; admiram-no como admiram um homem valoroso. Mas os poderosos lhes
querem mais mal do que um religioso pode querer de um demônio ou de um deus
maligno.
E falando nisso, muito
se diz que ele é uma figura de pouca crença. Dizem que toda a fé que a igreja
deposita em Deus, ele deposita o dobro nos pobres de carne e osso. Além dos poderosos
senhores quererem a sua cabeça numa bandeja, as Igrejas mais intolerantes –
devido a sua indiferença a Deus – também querem isso, mas não apenas: A cabeça numa bandeja, sua alma no inferno e
seu corpo enterrado sob mil maldições.
Sobre ele, muito se
especula, mas pouco se sabe. O que se pode saber, é que o mesmo tem um alaúde,
e sabe entreter e agitar qualquer público atento. E, além disso, dizem que suas
mãos dedilham as cordas de seu alaúde de tal forma, que o som que sai dele vai
além de uma mera melodia. Dizem também que a maioria das músicas que ele canta,
não são de fato dele, mas de autores desconhecidos e esquecidos pelo violento e
injusto rumo da História. Geralmente letras carregadas de vivências e
inspirações de vitória.
No mundo ele deve
vagar de hospedaria a hospedaria, de taberna a taberna, de cidade em cidade...
Com um rumo tão “certo” e “firmado” quando o seu nome e seu passado.
Um viajante qualquer,
um homem comum. Aparentemente um bardo que tira seu sustendo tocando em
variadas cidades, tirando moedas de sua canção, como um mendigo pedinte tira
suas moedas da caridade alheia.
O seu nome? Nem ele
sabe.
O seu passado? Uma
incógnita.
O seu rumo? Tão firmemente
planejado quanto uma viagem guiada por uma bússola quebrada.
Para Igreja, um Ímpio.
Para os bêbados, canção.
Para os injustiçados, esperança.
Para os poderosos, preocupação.
Para um desavisado, só um
bardo viajante, e provavelmente é assim que ele mesmo se vê. Mas ele não pode
ser apenas uma destas coisas isoladamente, pois ele é tudo isso em um só, num
só homem que não tem muitas coisas. Não tem nome, nem deus, e nem muito menos
um rumo previsto.
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